terça-feira, 14 de setembro de 2010

A Vida dos Outros


Kinomania

O que Fazer em Caso de Incêndio? (2002), Edukators (2004), Adeus Lênin (2003), ótimos filmes do cinema alemão atual, que retratam com primor e também humor as mudanças ocorridas após a Queda do Muro e questionam os valores da sociedade. Novo fôlego para um cinema que estava de certa forma adormecido desde meados de 80/90. Ótimos filmes mesmo, mas tinham algo um tanto pueril, pelo menos para meu gosto talvez já senil. Mas ao assitir a mais um filme alemão, A Vida dos Outros, senti abrandada minha saudade dos filmes de Fasbinder e Herzog. Personagens interiorizados, envoltos por uma cortina de ferro, impedidos da vida solar, cercados por um muro. Mesmo que vivenciando a vida alheia.  O agente da Stasi (Polícia Secreta da Alemanha Oriental), Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), cuja missão é vigiar 24 horas os passos de um casal de grande importância na cena cultural de Berlin, acaba revelando um personagem inusitado, um ser impessoal, mas que possui ideais, tecnicista com sentimentos impensáveis.
Surpreendentemente me lembrei de Chance (Peter Sellers) em Muito Além do Jardim (1979), alguém sem vida pessoal, quase sem passado, lembranças, mas que modifica a vida das pessoas. Porém, bem menos ingênuo e muito mais amargo, justamente por compreender exatamente a realidade em que vive.  Com um incrível desdobramento e um desfecho perfeito, o enredo aproxima-se da vida real do próprio ator Ulrich Mühe, mas os papéis se invertem. Ele mesmo, um dos líderes da cena teatral da extinta Alemanha Oriental, descobriu que também fora vigiado por sua própria esposa, durante 6 anos, a pedido da Stasi.

A Vida dos Outros (2006)
Das Leben der Anderen
Alemanha , Drama
Direção:
Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro:
Florian Henckel von Donnersmarck
Elenco:
Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Harley Davidson e Marlboro Man - Caçada Sem Tréguas


Guns are meant to be shot Harley, not thrown!

Em primeiro lugar, por favor, não critiquem o tradutor! Os títulos em Português são escolhidos pelas produtoras, não pelo tradutor. Com um título genial como esse, para que um título/subtítulo que nos confude com muitos outros filmes? Caçada Infernal, Caçada Mortal, Caçada Sem Tréguas?! Atualmente, conscientes de que o público está globalizado, as produtoras mexem menos nos títulos, ainda bem!
Porém, trata-se de um longa-metragem de 1991.  Um filme que pode misturar-se a tantos outros filmes de ação, com tiros e perseguições impossíveis, sendo inclusive esquecido nas prateleiras e relegado às sessões noturnas da TV. No entanto, se assistido com mais cuidado, apresenta elementos que aparecerão em obras icônicas do cinema. Mafiosos com aspecto automatizado e longos sobretudos pretos (genialmente blindados!) muito antes de Matrix; tomadas com zoon rápido, cenas urbanas com toques do Faroeste Spaghetti de Sérgio Leone, antes mesmo de Tarantino, são referências que surpreendentemente não existiam na época.
A história desenrola-se inevitavelmente, no clima do fim da década de 80. À época, um sentimento de esgotamento estético rondava, e chegaria com mais intensidade nos anos 90. Vazio este, preenchido somente, talvez, pelo genial Nirvana e sua cruel simplicidade. Tomando o espírito de Easy Rider, com toques de humor melancólico, o enredo retoma a eterna história de Robin Hood, conseguindo surpreender muitas vezes, e mostra uma dupla de durões, desajustados e de coração mole, cheios de princípios éticos imutavelmente contraditórios. Referências inevitáveis ao Rat Pack, liderado por Frank Sinatra e revivido por George Clooney, em Ocean's Eleven. Mas no lugar da sofisticação, é apresentado intencionalmente um bando rústico e pobre, porém com muito estilo. Taxados muitas vezes de canastrões, Don Johnson e Mickey Rourke interpretam algo parecido com eles mesmos (penso que, canastrear a si mesmo sempre é válido!), num filme despretensioso e simples, e que anônima e visionariamente iniciava uma era.

Harley Davidson e Marlboro Man - Caçada Sem Tréguas (1991)

titulo original: (Harley Davidson and Marlboro Man)
produção: EUA
direção: Simon Wincer
atores: Mickey Rourke , Don Johnson , Chelsea Field , Daniel Baldwin , Giancarlo Esposito
duração: 98 min


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Filme antes do Filme

Nada mais justo do que iniciar com o Filme Antes do Filme, documentário de Werner Nekes. Feito em 1985, com produção na Alemanha Ocidental, são reunidos objetos cinematográficos, imagens antigas, cenas de efeitos especiais que transpõem cinco séculos, nesta narrativa metalinguística dos caminhos das visões, luzes, sombras e movimentos que entram em harmonia formando um enredo. Dioramas, filmes de cabine, zoetropes, traxinoscopes etc. compõem este documentário histórico. Todos objetos da coleção de Nekes que é, ao mesmo tempo, fascinante e informativa. Fala da forma subjetiva que o homem sempre teve de ver o mundo, as imagens que se formam em nossa mente e o anseio em materializá-las com movimentos. O Teatro de sombras com as mãos é algo que remonta os primórdios da civilização e continua fascinante. O filme vai nos envolvendo nessa viagem pré irmãos Lumiére, que continua até hoje. Brincadeiras, duplo sentido, ilusões, lanterna mágica, inocência, erotismo, tudo faz parte desse universo lúdico.
Algum tempo depois de ter assistido, deparei-me com cenas em outro filme, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Tim Burton-1999), que me remeteram imediatamente ao documentário alemão. Como uma quase fábula gótica, o filme brinca com o fascínio da nova ciência exercido em finais do século XIX, em contraposição ao clima sombrio de um Nova Inglaterra Vitoriana. A narrativa é permeada por cenas como a do disco com uma imagem de cada lado (no caso um pássaro e uma gaiola) que ao rodar gera a imagem do pássaro na gaiola, um dos primeiros brinquedos ópticos, fazendo referências ainda, à disputa de pensamentos entre a sociedade repressora e a chegada do Século da Luz.
Com a Luz, veio o cinema, porém, muito antes , antes mesmo, já havia o filme.


FILME ANTES DO FILME (1985)
Alemanha Ocidental
diretor
Werner Nekes
roteiro
Werner Nekes
fotografia
Bernd Upnmoor
música
Anthony Moore
Longa-metragem - 83 min